Testemunho | Eu gritava: A minha menina só tem 10 anos!

Não gosto de me lembrar deste inferno que passámos cá em casa.

Mas foi a minha própria filha que sendo ela leitora deste blogue me pediu opinião sobre escrever este testemunho sobre um momento tão difícil.

Ela quis fazer para alertar sobre o caso dela.

Então decidimos que eu escrevia para não ser muito doloroso para ela.

A minha filha que prefiro não dizer o nome tinha 10 anos quando começou com dores no corpo. Dores essas diagnosticadas pelo pediatra dela na altura de dores de crescimento.

Filha única estava naturalmente debaixo de todos os holofotes. Eu fui notando que ela teve uma quebra de energia e até anímica.

Até que um dia depois de um treino de andebol ela diz que lhe dói muito o peito e que provavelmente levou com a bola e nem percebeu na altura.

Era uma sexta-feira, foi para a cama sem querer comer e passou o fim-de-semana muito murcha.

No domingo à noite diz-me:

“Mamã fiquei com um alto no peito da bolada que levei.”

Vi de imediato e achei estranho uma bolada fazer esse tipo de lesão, no entanto, descansei-a e disse-lhe que ia passar.

Os dias foram passando e o assunto acabou por se perder nas conversas do dia-a-dia.

Até que chegou o verão e fomos às compras, precisávamos de biquínis novos.

Foi no provador de uma loja que olhei para o peito da minha filha e percebi que algo estava errado.

No dia seguinte de manhã estava no pediatra dela e o meu sexto sentido dizia-me que algo estava mal.

Ao início o pediatra relativizou mas eu insisti para lhe prescrever exames.

Era verão e as coisas demoravam muito a ser marcadas.

Eu estava de férias, então comecei a investigar tudo e mais alguma coisa.

Perdi alguma sanidade mental nas buscas noturnas no Google.

Não conseguia acalmar nem esperar pelas datas dos exames e fui sozinha ao consultório do pediatra e disse-lhe:

“É provável que a minha menina tenha cancro de mama!”

Ele olhou para mim com um misto de louca, de mãe exagerada (como olham sempre) e com “mas quem é o médico aqui?”.

Nenhum dos exames que lhe tinham sido prescritos, eram directamente para a mama, nem mamografia, nem eco mamária e eu estava em pânico de andar a perder tempo.

“Marque-lhe por favor uma mamografia.”

Pedi eu, aos gritos e debaixo de um choro compulsivo.

Começou por alegar que a minha filha era muito nova para se sujeitar àquele tipo de exames e pediu-me para ter calma…

Enquanto chorava fora do consultório apareceu uma médica pediatra que me perguntou se estava bem, porque tinha me ouvido aos gritos a chorar.

Contei-lhe o sucedido. Mandou-me aguardar num gabinete vazio durante mais de 20 minutos.

Voltou e deu-me a prescrição da mamografia.

Não consegui esperar pela marcação no hospital público e marquei no particular 3 dias depois.

E foi nesse dia que soube, que soubemos.

Foi nesse dia que a nossa vida mudou para sempre.

“E eu só gritava: A minha menina só tem 10 anos!”

Apesar de eu ter quase a certeza que seria esse o diagnóstico, queria obviamente que não fosse. Eu só queria estar errada.

Não há uma forma de se dar esta notícia que não doa, não há.

Dói sempre e sofremos sempre.

Mas dizer a uma mãe que a filha de 10 anos tem cancro de mama é inacreditável e ainda mais inacreditável é ter que se explicar a uma menina de 10 anos coisas que nem os adultos conseguem entender.

É raro, mas acontece.

Acontece e aconteceu-nos a nós.

Foi uma luta que prefiro não descrever aqui, até porque mesmo passados 5 anos, ainda não consigo falar sobre isto sem reviver o que passamos.

Queria muito alertar todas as mães e pais que insistam com os médicos, não os deixem relativizar quando o assunto são os nossos filhos.

E se o vosso médico não faz o trabalho dele, se não vos ajuda, mudem de médico!

Por diversos motivos eles são pressionados a fazerem-nos consultas rápidas, a conterem-se na altura de prescreverem exames, a considerarem todas as mães e pais exagerados, mas, somos nós responsáveis por bater com o pé no chão.

No nosso caso o diagnóstico foi tardio, o processo de tratamentos foi muito longo porque o diagnóstico foi tardio.

E quase perdi a minha filha por causa disso.

Se eu tivesse relativizado, se não tivesse pesquisado, perdido dias e noites a fio a ler tudo o que consegui, se não tivesse perdido a dignidade quando gritei e chorei aos gritos à porta do consultório do pediatra, hoje o mais certo era não ter cá a minha filha.

Por isso, escrevemos este testemunho com duas frentes muito sérias.

A primeira é para alertar que o cancro de mama infantil / adolescente é raro, mas existe.

E a segunda é que os pais têm a obrigação de proteger os filhos e não os deixar nas mãos dos outros.

 

Fotografia meramente ilustrativa.

Créditos da fotografia: Michael Rosner-Hyman

 

Corrente Positiva:

Testemunhos reais de pessoas que inspiram

Testemunho | Pedro, o Ironman

Testemunho | Afinal eu venci o cancro e todos os dias faço questão de esfregar o meu sorriso na ‘cara’ dele

Testemunho | Sou uma mulher inteira, porque o cancro não me levou nada que eu não tivesse deixado

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Testemunho | Só venci isto, porque nós as duas somos a equipa perfeita!

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