O Cancro e a Mente

Começo por pedir desculpas às pessoas que me têm pedido para escrever mais sobre este tema, mas tive que me distanciar um pouco porque nem sempre a viagem é fácil e por vezes custa estar com este tema em mãos.

Mas agora que já montei o puzzle e tenho o coração inteirinho, vou responder a uma pergunta que me fazem muitas vezes.

Então, mas como é que conseguimos ter sempre pensamento positivo?

Não conseguimos!

Esqueçam isso.

Nunca conseguimos estar 100% positivos ou optimistas.

Já disse anteriormente que o “truque” que usei (e uso) é ir gerindo o dia-a-dia.

Sem dramas excessivos, mas também sem optimismos lunáticos.

 

Na altura em que estive pior, comecei a treinar a mente.

Senti que me ajudava nas dores, na ansiedade e trazia-me alguma paz.

Comecei a evitar ter pensamentos negativos, pensamentos que não me acrescentavam nada de bom.

Comecei a sentir que controlava a mente e usei isso a meu favor.

Houve quem me chamasse de louca, mas eu usava e abusava da minha mente todos os dias.

Eliminei totalmente frases como “não consigo”, “não vou aguentar”, “vou desistir”, porque acredito que, por vezes, a nossa mente não consegue distinguir o certo do errado e que dar-lhe informações más poderia ser muito perigoso. A mente precisa de nós como se fossemos um GPS. Ela (a mente) reage aos nossos estímulos.

(ainda estão desse lado, ou já se foram embora a gargalhar e a pensar que estou alcoolizada? A sério… acreditem que resultou comigo)

Basicamente, vamos sempre bater na mesma tecla.

Evitar pessoas e pensamentos tóxicos!

Vou dar um exemplo:

Eu nunca olhei para a quimioterapia como um veneno, como algo que me destruía. Agradeci sempre que sentia a agulha a furar-me a veia. Agradecia quando o líquido azul, vermelho ou incolor entrava com força por mim adentro. Agradecia muito por ter a oportunidade de receber quimioterapia.

Há países onde não há essa oportunidade.

Há pessoas que morrem, porque não conseguem fazer quimioterapia.

Conheci pessoas que eram totalmente contra a quimioterapia e consideravam-na um veneno, porque eram mais adeptas da medicina “natural”, e eu pensava:

“Então porque estão aqui? Ninguém nos obriga a fazer nada!”

Eu não sou contra a medicina alternativa ou natural, até porque aliei a medicina convencional à alternativa, mas sempre tive bom senso e nunca acreditei que me curava com ervinhas mágicas, que nascem nos dias pares dos meses ímpares atrás da moita mais a sul da Escandinávia… nunca tive muito tempo para esses devaneios (respeito quem o tem), mas aliei as duas medicinas.

E a partir do momento em que autorizo ou que me submeto a um tratamento seja ele qual for, não o posso considerar veneno. Não faz qualquer sentido.

Mesmo sabendo que ia passar mal (porque passei sempre muito mal), sabia que fazia parte do processo e pensava sempre que até os efeitos secundários eram o sinal de que o tratamento estava a fazer efeito. E todos os dias, estava um passo mais perto de acabar o protocolo e o foco sempre foi ficar melhor.

Lembro-me (como se fosse hoje) de olhar para aqueles muitos e muitos frascos dos líquidos que me injectavam e pensar neles como uns aliados, como um momento de luta, onde eu andava de mão dada com eles (os líquidos).

Na radioterapia fazia o mesmo, sempre que começava aquele barulho que até hoje não esqueço, ao invés de ter medo ou de pensar que me estavam a queimar por dentro, recebia tudo o que a medicina tinha destinado para mim, sempre com uma postura grata.

E mesmo quando tinha dias maus (e tive tantos), eu mentia à mente!

Fartei-me de mentir à minha mente.

De contrariar.

Mesmo quando tudo corria mal eu escolhia pensar que fazia parte do processo.

Outra coisa que evitava eram as pessoas que estavam carregadinhas de más histórias, com essas só me cruzava de phones colocados nos ouvidos.

Tentava espalhar boa energia, ser parva, bem disposta… tudo o que desse para me distanciar da realidade no momento.

Mandar uma risada de vez em quando sabia mesmo bem!

Não era difícil, aliviava-me.

É verdade que nem sempre conseguia afastar os pensamentos maus, até porque durante algum tempo eu passei mesmo muito mal e o quadro só piorava. Ainda assim, temos que ser persistentes e acreditar que todos os dias são ganhos, basta termos acordado.

Eu todos os dias dizia para mim o quão forte e guerreira eu era.

Valorize-se, reconheça que é brutal.

Não espere que sejam os outros a fazê-lo, façam vocês a vocês próprios.

Não há ninguém melhor que você para se valorizar, porque você é o único que sabe a 100% o quão gigante é esta batalha.

Grite comigo:

SOU ENORME! TENHO MAIS FORÇA QUE ALGUM DIA IMAGINEI. ESTOU A DAR TUDO!

VOU CONSEGUIR!

Eu se o conhecesse, gritava isso ao seu ouvido todos os dias, porque é mesmo verdade.

Quem passa por isto… caramba pá!

Não é para qualquer um!

Não se culpe por favor…

E tenha cuidado com o que diz para si próprio, lembre-se do que eu disse em cima:

A nossa mente não consegue distinguir o certo do errado e que dar-lhe informações más poderia ser muito perigoso.

Força!

Não está sozinho.

Escreva-me a dizer sobre que temas gostaria que eu partilhasse a minha experiência.

 

Mais artigos sobre este tema aqui:

Cancro

 

 

Créditos da fotografia: Adrianna Calvo

8 Replies to “O Cancro e a Mente”

  1. ❤️

  2. ❤️ És um exemplo de luta. De boas palavras, de bom coraçao e um grande exemplo de Ser Humano.

    1. Obrigada querida Inês ❤️

  3. Tal como já te o disse és uma força da natureza, um ser com uma força extraordinária, boa onda, sempre com um sorriso e uma palavra amiga. Continua o trabalho fastastico que por aqui fazes, a ajuda que dás a outras pessoas não tem preço. Beijinhos desta que nunca te esquece.

    1. Obrigada minha querida ❤️

  4. Manuela Rodrigues says: Responder

    <3

  5. Manuela Rodrigues says: Responder

    ❤️

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