Já perdi metade da minha vida

No outro dia almocei rapidamente no Colombo.

Entre passar os olhos rápidos nos saldos e sentar-me para ceifar uma salada em menos de nada, reparei numa senhora.

Magra, cabelo caído, olhos claros e um rosto tão marcado pela dor que não percebi que idade teria.

Na altura pensei que estaria acompanhada com as pessoas com quem estava a falar.

Mas rapidamente a vi a ser enxotada da mesa.

E o mesmo aconteceu em mais duas ou três mesas.

Até que ela chegou a minha mesa…

“Podia-me ajudar por favor. Tenho fome. Podia dar-me alguma coisa para comer?”

Fiquei a olhar para ela e não senti que isto fosse uma situação de décadas.

Ela não estava sem abrigo há muito tempo.

Pelo menos não parecia.

Não me pediu dinheiro directamente.

Sugeriu que lhe pagasse qualquer coisa pra comer.

Contou-me que perdeu a casa onde vivia há meses porque perdeu o emprego.

Sempre trabalhou e agora estava desesperada, sem casa e sem dinheiro.

Mas eu, de repente, fiz-lhe uma pergunta que foi como um murro no estômago.

Ela parou, olhou para mim e respondeu-me com a verdade.

“E vícios há?”

“Metadona. Estou na metadona há algum tempo. Mas com isto tudo, já perdi metade da minha vida.”

Entre raiva e vergonha dela própria dizia-o com os dentes cerrados.

Quase como se quisesse auto mutilar-se com o passado e eventual presente.

Tinha 40 anos (aparentava mais de 50 seguramente).

Repetiu várias vezes como se tivesse muito zangada com ela própria:

“Com isto tudo já perdi mais de metade da minha vida.”

Perguntei- lhe (porque eu gosto de falar com pessoas que nunca são ouvidas pelos outros) se já tinha recaído.

Ela disse que não, mas que também não tem conseguido largar a metadona.

Disse isto a encolher os ombros como quem diz:

“É a mesma merda! Estou agarrada na mesma!”

Por várias vezes que a meio da conversa pedia desculpa por me estar a incomodar ou a estragar o almoço.

Disse-lhe sempre que não e continuei a falar com ela.

Tentar dar uma de Paulo Coelho para cima de uma pessoa com uma bagagem destas não faz o meu género…

Concordei quando ela dizia que muito da vida se perdeu…

Mas pedi-lhe para tentar encontrar um melhor caminho…

Não insisti muito, porque este tipo de conversas de nada valem…

Aprendi com a vida que só salvamos baleias do Pacífico se elas quiserem…

E no fim… dei-lhe dinheiro.

Não lhe disse nada.

Apenas dei.

Ela quis justificar-se.

“Vou comprar ao Continente que é mais barato.”

Eu não quis saber, nem tão pouco pensei que poderia ir usar o dinheiro para outra coisa.

Para mim, foi fazer o que ela quis com aquele semblante carregado de uma dor de quem dizia com os olhos verdes mais tristes que já vi, que muito da vida já estava perdida.

Não gosto de ver pessoas a ser enxotadas, principalmente quando são educadas, quando mantém uma margem de distância das pessoas e não insistem.

Não gosto!

Ouvi chamarem-lhe de parasita…

Não sei se o é ou não.

Sei que ninguém nasce imune a este tipo de situações, connosco ou com alguém próximo.

As adições são um problema muito grave e, na maioria das vezes, pouco levado a sério.

É mais fácil chamarem-lhes nomes como drogados, bêbedos, parasitas…

Se eu sei como isto se revolve?

Não, não sei!

Queria ter capacidade de gerar postos de trabalho para estas pessoas.

Queria poder ter residenciais sociais para alojá-los e tirá-los das ruas.

Queria que houvesse um sistema capaz de os ajudar a sair das adições e que os reintegrassem na sociedade.

Queria que as penas do tráfico fossem exemplares.

Queria tanta coisa e, mesmo assim, não sei se resolveria alguma coisa.

Arrependo-me sim de não a ter convidado a sentar e almoçar comigo.

Mas não lhe quis tirar o pouco que ainda tem. A liberdade.

Ela não iria querer as minhas perguntas.

Talvez iria querer conversar porque ninguém o faz com ela (disse ela).

Mas eu iria querer saber o que descambou na sua vida para que aquele olhos lindos verdes estivessem tão baços.

 

Créditos da fotografia: Krists Luhaers

2 Replies to “Já perdi metade da minha vida”

  1. Como tu és bonita… Obrigado por existires. Obrigado por seres tão fascinante. E obrigado a cima de tudo por te partilhares!

    1. Obrigada meus queridos <3

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