Testemunho | Só venci isto, porque nós as duas somos a equipa perfeita!

Cresci numa família perfeita. Somos duas, eu e a minha Mãe.

Nunca me faltou nada. Nunca senti falta de ninguém.

Nunca conheci o meu Pai, ele tinha outra família e nunca me quis conhecer. Nem eu a ele. Nunca senti falta de ter Pai, a minha Mãe fazia esse trabalho muito bem.

Éramos sobretudo amigas e companheiras. E somos.

Ela sempre quis o melhor para mim e chegou até a embarcar em algumas loucuras minhas.

Tinha acabado o secundário e estava confusa com o meu futuro. O meu inglês não era bom e até decidir que curso tirar, pedi à minha Mãe para ir para Londres aprender a falar inglês.

Na altura foi um choque, nunca tínhamos estado separadas e eu mostrava pela primeira vez que queria cortar o cordão umbilical.

Lá fui eu armada em adulta para Londres. Chorei tanto que só me apetecia voltar a cada hora, mas tive que ser forte porque a minha Mãe estava a fazer um enorme esforço financeiro.

Aprendi a gostar de Londres de uma maneira que preferia andar pelas ruas do que no curso, ou seja, andava mais a passear que outra coisa qualquer.

Três meses depois de lá estar a falar ao telefone com a minha Mãe percebo que algo se passa.

“A Mãe tem andado a fazer exames e há aqui qualquer coisa que não está bem…”

Na altura não perguntei mais nada.

Já tinha sentido a voz dela meio esquisita, mas achava que era pelo meu devaneio londrino estar a correr de forma diferente daquela que eu tinha prometido que iria ser.

“Não te queria dizer assim, mas não tenho outra forma e não te quero esconder. Somos uma equipa e não te posso fazer isso.”

Estava tanto frio em Londres, mas de repente fiquei com tanto calor e disse-lhe que estava a ouvir mal e que ia desligar mas que já ligava.

Fui a correr, mas não consegui chegar ao quarto onde morava e vomitei no meio da rua. Chorei tanto mas tanto que não conseguia andar com falta de força.

Eu não fazia a mínima ideia do que era, mas fui invadida pelo medo.

Não liguei de volta, não fui capaz, não queria saber o que era na esperança que não fosse nada.

“Joana a Mãe ama-te muito e vais ter que ser forte, porque a Mãe vai ter que ser operada e fazer uns tratamentos…”

Depois disto lembro-me de muito pouco, voltei ao Porto o mais rápido que consegui. Só queria sair dali e abraçar a minha Mãe.

Já não cheguei a tempo antes da operação, mas quando ela acordou eu estava lá.

Nesse dia foi me contado o que se passava.

Era cancro. Cancro de estômago. Coisa já muito batida na família da parte da minha Mãe, mas que eu nunca tinha convivido de perto.

Eu achava que já era uma adulta porque tinha ido de avião para longe, sozinha e vagueava sem medo pelas ruas escuras de Londres, o que eu não sabia era que o verdadeiro passaporte para a maturidade ainda estava para vir.

Em 3 semanas a minha Mãe piorou tanto e ficou tão fraca que estava irreconhecível. Já eu estava com a força nos píncaros. Li tudo, perguntei a todos os médicos que consegui, enviei dezenas de emails, procurei respostas, chorei, gritei, fiz tudo. Nunca baixei os braços. A minha vida era ela e a luta dela.

Acompanhei todos os tratamentos, consultas, exames, tudo.

E as coisas começaram a melhorar, ela a animar, os médicos a ficarem esperançosos (coisa que ao inicio era muito enigmático) e o caminho era aquele.

Até que o sol começou a brilhar todos os dias, as notícias era sempre melhores que as anteriores e quase 2 anos depois, já nem eu me lembrava de Londres e nem ela tinha medo de morrer.

Foram 2 anos de massacre, muito difícil mesmo, mas a mensagem que queremos deixar é que nem sempre na vida as coisas são fáceis ou até justas, mas quando aparecem temos que lutar por elas até ao fim. Acreditar sempre. Se a minha Mãe conseguiu, vocês também conseguem. Acreditem! E juntem-se às pessoas certas.

Acabo este testemunho com a frase que a minha Mãe me disse numa consulta já no fim da luta:

“Só venci isto, porque nós as duas somos a equipa perfeita!”

 

Nota: Fotografia meramente ilustrativa. 
Fonte: Alexandre Godreau

 

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